Mamãe ama meu revólver

Espaço inexistente onde o nada se transfigura em coisa nenhuma e mimetiza o vazio. minha cabeça.

Saturday, March 31, 2007

se essa(s) rua(s) fosse(m) minha(s)

ele pegou duas ruas vicinais, que nao conhecia. ruas sem ninguém, repletas de um ar puro, fresco e solitário, que invade o seu corpo como um entorpecente. sente um aperto subito no peito, como se algo lá acordasse, invadido por um novo sopro de vida. quase cai no chão com a pressao nova, intravenosa, embasbacante. as narinas dilatadas ardem com aquele ar inclementemente bélico. em momentos estranhamente simultâneos; sente como se estivesse enchendo como um balão, leve para voar, quase levantando voo; e como se algo, o mais pesado e opressor preenchimento o prendesse à terra, empurrando contra o solo, pesando sobre os joelhos que se arqueiam em reverência.

seus olhos estao mareados, por mais secos e dilatados que parecam. o contorno das ruas se perde, as duas ruas simultâneas, sobrepostas, ocupantes do mesmo espaco, distraindo as leis da materia, dilatando o tempo-espaço daquele instante de alívio sôfrego.

seu olhar ultrapassa agora, essa pretensa realidade palpável de ar puro e forte como uma dupla dose de vodka; ultrapassa essas caixas de sapato empilhadas, essas cidades de sucata, brincadeiras de alguma criança entediada. ele olha reto e sério, para as palavras que saltam como de um abismo a frente. o abismo brilha, com uma forte luz artificial, límpida e opressora como o ar das ruas que estava, está, não esteve. saltam desse abismo os caracteres, retos perfeitos, decididos. saltam como pontos negros, como se a profundidade viesse deles, estivesse restrita aqueles inúmeros pontos negros, como buracos de traça na superfície brilhante que separa nossa existência oprimida pelo ar e pela tirania da respiraçao incessante e involuntária desse outro espaço, icomensuravelmente profundo, negro e repleto de signos, caracteres e pontos negros que rasgam a película do que é-real-não-o-sendo.

ele agora escreve, de frente para a tela brilhante e pontilhada do computador, febrilmente tentando achar as duas ruas, o voo e o peso, e a película brilhante. ele procura esse fuga de novo e de novo, dentro da sua caixa de sapatos.

Wednesday, December 27, 2006

esquecido pelo mundo.

São Luís é uma cidade avermelhada de terra, com uma tarde morna e longa interrompida pelo estouro periódico de bombinhas.
e segundo um garotinho de 2 anos, habitada por dinossauros.

aqui a solidão se espraia na terra vermelha e volta pra casa pesada e suja, feito criança cansada das férias.

Monday, December 18, 2006

é o costume, afinal.

Ela acordou cedo, bem cedo. É o costume, afinal. Não interessa o sábado, o feriado, a comemoração nacional, as paradas militares ou Deus descansando depois de fazer o universo. é o costume, afinal.

Cedo, como de costume, e encarangada. Não sei se é o costume, afinal, mas ela sempre acorda com as articulações nodosas do corpo trêmulas, e com um frio quase insensível ao mundo. Levanta arrastando os pés, joga o robe sobre o corpo magro e desafetuoso das cinco da manhã e avança decidida como um conquistador rumo ao banheiro. Investe, com sua fúria contida e dosada com antidepressivos, contra cada azulejo mofado nas bordas. Seus passos, conquistadores de centímetros, são mudos e irregulares; os músculos da cara, amassados pelo travesseiro da cama e enrugados pelo sono murcho dos anos, abrem a boca seca em um bocejo inaugural; o hálito velho da noite se espalha pelo ar frio e úmido do banheiro.

ela inicia o seu ritual matinal, desprovido de pompas ou pensamentos, automático como os olhares desinteressados que devolve ao espelho enquanto limpa a maquiagem borrada da noite. Ela dorme maquiada, de batom, rímel e blush, na mórbida esperança de que, se morrer, estará digna e deslumbrante como uma atriz de novela. Todo dia ela acorda, feia e ninguém, com essa esperança borrada na cara, sem flores, choro, câmeras de novela ou o Tarcísio Meira sorrindo nas portas do purgatório. É o costume, afinal.

Wednesday, October 18, 2006

Nota autobiográfica.

Ela estava ali, como que refugiada do mundo duvidoso e inimaginável dos adultos por mais alguns segundos. lembro vagamente da situação. de como o tempo passou rápido, muito rápido, como que correndo numa brincadeira de recreio. Lembro, ou sinto, para ser mais sincero e menos preciso, a mesma velocidade tranquila e agradável. Não me preocupava como tempo naquela época, não sentia urgência dos instantes mágicos, a preocupação de sobreviver e saborerar desesperadamente, meticulosamente esses instantes. sei que foi rápido. Tão rápido quanto uma mãe pode pronunciar, com a quele tom imperativo, o nome Nicole.

é, nicole era o nome. Lembro do nome, me lembrei por acaso esse dia. os cabelos eram negros, lisos, cortados tipo chanel, com aquela franjinha. A pele era branca, muito branca. Tão clara que sua luz borra o rosto na memória. sei que ela tinha um rosto de criança, levada e suave; daquelas crianças que as avós chama de arteiras. um rosto de criança irresistível, com certeza. O meu gosto não pode ter mudado tanto, afinal.

Sei que eu estava lá. dentro daquele tubo de concreto áspero, ainda morno do sol da tarde. Aqueles tubos de pracinha, que dão a impressão de serem o refúgio mais solitário e mais perfeito, o lugar mais privado e protegido, na inconstância do universo incerto das crinaças. a creche era árida e amável, e devia ser final de tarde, hora da saída, fim do exílio. estávamos lá. eu e Nicole. a borrada e luminosa Nicole da minha lembrança mais antiga. e, naqueles segundos antes da sua mão chamar, trocamos um olhar cúmplice, inocente, idílico. Sem palavras, sem pudores ou malícias. Nos olhavamos, quando irrompeu, como a mais natural, incrível e delicada brincadeira a decisão. A voz trovejante da mãe dela chamou quase ao mesmo tempo em que nos beijamos.

Foi um daqueles beijos vivazes, rápidos como um soluço, onde uma mínima parte dos lábios se tocam envergonhadamente. Sei que foi rápido. acho q até hoje, foi a coisa mais rápida que já aconteceu na minha vida. Rápida, suave e indolor. Foi assim. Mais descrição retiraria toda a magia do momento, do segundo, da existência. tudo o que posso é repetir a fala da mãe dela, Deus ex-machina: Nicole.

ela me olhou já saindo em altíssima velocidade do tubo, um olhar meio confuso com o sol dourado fraco do fim da tarde. Um olhar de luz. E eu fiquei ali, exultante, confuso e vivo. incrivelmente vivo. Estava um pouco assustado tb. Mas meu refúgio me tranquilizou. esse foi um momento longo. um longo deleite de memória imediata. e aí acaba, nesse tubo áspero de concreto o meu flash de lembrança.

Não lembro de ter falado com ela alguma vez, no meu longo ano naquela creche. Não lembro de a ver alguma vez depois. Acho q ela existiu pra mim só naquele momento ímpar. Naquele segundo doce e morno, que durou um simples nome.

a memória é um segundo fragmentado, que borra com sua luz o passado. A memória é um nome pronunciado por nós, na solidão do relembrar.

Wednesday, September 13, 2006

declaração as musas...

-Eu te amo, assim, literariamente falando. -

Tuesday, August 29, 2006

Tchekhov 179.

- O frio faz a gente se sentir vivo -
falou ela naquela hora, em que o vento gelado do rio nos envolvia e o futuro parecia que nunca ia apontar suas luzes na esquina.

É nessas horas que ela faz eu me sentir vivo.

Saturday, August 05, 2006

Escrever.

Acordo com uma dor de cabeça estranha. É madrugada, início dela, mas me sinto como se estivesse em um meio-dia de verão: suado, raivoso, desconfortável. Estou acordado como nunca.
Empurro as cobertas para o lado com fúria, como se elas fossem uma amante incoveniente; uma prostituta que já perdeu a serventia e não valeu o preço. Totalitarismos de macho Alfa.

Descarto qualquer possibilidade e pegar no sono novamente; meus olhos são magnéticamente obrigados a se manter abertos, como que esperando uma verdade irrefutável, uma resposta desmoronante. Mas só vejo luz esbranquiçada e hospitalar do banheiro entrando teimosa pelas frestas da porta. Grande revelação! A irrefutável verdade da condição humana: comer, beber, foder, mijar, cagar. Pontos de passagem, moedores de substâncias, máquinas inúteis.

Desco da cama, subitamente, e piso os primeiros passos. São sempre difíceis, estranhos, esses primeiros passos do meio da noite, do sono interrompido. Tenho a impressão de que a vida dos miseráveis é assim, um eterno acordar no meio da noite, balbuciando sonhos abortados pela realidade estupradora dos despertos.

Sinto um misto de sede e fome, combinados com uma raiva sem objeto definido. Passo reto pelo banheiro, ignoro a cozinha; encontro um maço de folhas brancas. Puxo uma, acabo movendo várias. Nunca se consegue pegar uma folha só, sem mover outras. Nunca.

A folha é branca, branquíssima. Olho pra ela como que para um espelho metafísico.

. . .

crescem ranhuras, intumescem partes do papel. Um rosto pálido, escarninho, filho da puta surge na folha branca. Ele me olha, provocativo, no fundo dos olhos. Ri, gargalha, pisca. Leio nos lábios dele os xingamentos, as frases de menosprezo, as provocações. Sinto ganas de rasgar a folha ao meio, de queimar essa merda. Esmurro ela uma vez, duas. Encho aquela cara polaca de porradas. filhodaputa. murro, murro, murro.

O som de papel amassando é quase o som de ossos quebrando. Maxilar, Zigomático, Mandíbula, Nasal, Temporal. Impulsiono minha testa na direção dele. Eu sou o macho Alfa. Sinto as cartilagens dele soltando ao contato com meu punho. Sinto a cara dele se reconfigurando em torno da minha mão. Sinto o calor na base dos dedos; o calor de energia transmitida em violência. Sou osso e aço, punho e sangue.

E ele ali, sem reação. A violência muda, inaudível, é a mais perturbadora forma de comunicação. Não ouço um gemido, um som, um murmúrio pedindo compaixão ou chorando pra Deus ou o caralho, que no final não te escutam. Porque o som de um soco é mais alto. O som de um soco é o barulho mais alto do universo naquele segundo.
Não ouço nada além do som infinito do soco, e um zunido intermitente. Só uma música no fundo, bem baixinho. É.
Iggy Pop.

Paro, ofegante. O zunido aumenta, sinto uma sede desgraçada. Vou no banheiro, com a folha amassada, comprimida na minha mão. Sinto o molhado no meio dos dedos.
Entro no banheiro e olho no espelho. Banheiros me lembram uma UTI.
Minha cara tá toda arrebentada. Supercílio aberto, olho inchado, baba vermelha escorrendo, maxilar deslocado.Aquele gosto na boca, que dá a impressão de que tu lambeu um corrimão de ônibus até tua língua rasgar.

Cuspo plaquetas, glóbulos brancos e, sobretudo, vermelhos. Hemoglobina. ferro, literatura, HIV, óxidos, tango. Um dente. Cuspo tudo isso em cima da folha amassada, que agora vejo novamente plácida, sem rosto. uma pigarreada, um catarro, mais sangue: Tuberculose mimetizada. lindo, artístico, ressignificado.

Sinto a sede de novo, misturada dessa vez com aquela dor de cabeça estranha, todas são afinal, e uma certa ânsia também. me ajoelho apoiado na pia, a folha cai da minha mão trêmula, paira e aterrissa silenciosamente no chão. Sinto uma pontada, uma ardência, uma urgência. Vomito em cima da folha: bílis, saliva, mais sangue.

Me levanto inseguro, lavo a cara, o que arde pra caralho, e vou tentar ir dormir de novo. Olho pra folha mais uma vez, agora suja, tingida de vermelho, verde, negro; e sob tudo isso eu posso jurar que ainda vejo o filho da puta rindo de mim.
Merda de espelho metafísico.