Mamãe ama meu revólver

Espaço inexistente onde o nada se transfigura em coisa nenhuma e mimetiza o vazio. minha cabeça.

Saturday, November 26, 2005

Voluntários da Pátria

pois é. caminhar na volunta me fez escrever isso.é tipo um relato das minhas impressões de uma saudável caminhada ao cair da noite.indo a um show no Cenotécnico.é meio longo...sei lá.

Caminho na boca do esgoto
As mãos lascivas da noite
Puxam meu braço
E oferecem abraços
À preços módicos

Trago longos goles
Da fumaça que resta
Desse longo dia
Enquanto panfletos esquecidos
Alçam vôo dos meus passos

Sinto o estalar
Das armas engatilhadas
Carregadas de carne ,dentes,
Líquidos e mordidas;
Carregadas de pecado barato

Ouço as vozes distantes
Das televisões ligadas,
Da fritura no fogo,
Das eternas brigas iguais,
14 polegadas de sonho.

Eu vivo esse sonho,
Transfigurado em pesadelo
e náusea.
Eu sinto o sono de papelão e plástico
sob o Viaduto

Lembranças de outros tempos
Cruzam por mim, nas carroças
Lembranças corrompidas
Cobertas de tralhas,
latas e papéis

lembranças cruéis.
Talhadas à faca
Na pele quase-escura
Na carne fraca
Dessas mariposas sem asas

E essas mãos noturnas
cravam suas garras vermelhas
e oferecem esganiçadas
seus quilos de guisado
embalados em cinta-liga e salto alto

“não tinha Cristo nos purgado?!?”
A pregação entusiástica do microfone
Ataca meus tímpanos e
Espanta minha alma
Da sua salvação de camelô

Ignoro os meus sentidos
E tento passar incólumePor essa avenida tão longe do céu.

Thursday, November 24, 2005

Me impressiono com a fragilidade das coisas.ainda mais a das coisas abstratas e subjetivas,como a felicidade, o amor, a certeza e suas variantes. Eu sei que todo mundo já falou sobre isso. Que o primeiro poeta que estudamos em literatura tem aquele poema muito bom sobre isso.que qualquer idiota pode notar isso. Mas não sei porque, eu tenho o costume de me enganar deliberadamente.

É tudo como as pétalas daquela flor que ela gostava, aquela, bem branquinha, que tu dá um assoprinho e elas se soltam, e voam longe, longe...

Sempre achei que aquela flor fosse um aviso.

Saturday, November 19, 2005

Veja bem, meu bem
Sinto te informar que arranjei alguém
pra me confortar.
Este alguém está quando você sai
E eu só posso crer, pois sem ter você
nestes braços tais.

Veja bem, amor.
Onde está você?
Somos no papel, mas não no viver.
Viajar sem mim, me deixar assim.
Tive que arranjar alguém pra passar os dias ruins.

Enquanto isso, navegando vou sem paz.
Sem ter um porto, quase morto, sem um cais.

E eu nunca vou te esquecer amor,
Mas a solidão deixa o coração neste leva e traz.

Veja bem além destes fatos vis.
Saiba, traições são bem mais sutis.
Se eu te troquei não foi por maldade.
Amor, veja bem, arranjei alguém
chamado saudade.

****

Tem músicas que fazem tanto sentido de repente; falam tudo que tu queria falar;dão vontade de cantar bem alto, de berrar pra todo mundo ouvir,de sair correndo por uma campo deserto ou por uma avenida movimentada ,desviando dos carros, mesmo que sejam músicas calmas; dão vontade de se encolher num canto, se abraçar em alguma amigo que tu não ve faz tempo; que te dão vontade de obrigar os outros a ouvi-la, pra que tu não tenha que falar; dão vontade de chorar e rir ao mesmo tempo, assim , bem cínico...

Tuesday, November 15, 2005

Há tempos...

Há tempos ele não se propunha a escrever. A velha mesa; descascada nas quinas, carcomida pelo tempo, manchada de vinho, cigarro e café, arqueada pelo peso de muitas amantes voluptuosas; confundia-se com ele mesmo. Essa mesa o acompanhou por muitas casas, muitos escritos, muitos amores. O cinzeiro vazio sobre ela - parara de fumar-era uma profunda boca de vidro berrando por comida. Parara de fumar ou de viver?
Desviou-se rapidamente dessa dúvida ao notar, lançando seu corpo para trás, a velha cadeira. O couro curtido e rasgado, de onde saltavam pedaços de espuma como pus de uma ferida. Ela continuava confortável, acolhedora, maternal. No seu colo ele reviveu antigas sensações e repetiu o atávico gesto de reclinar-se na cadeira, esticando os pés e deslizando as costas pelo couro coberto de cicatrizes, olhando vagarosamente para o teto. Noutros tempos pensava nas personagens, nas palavras. Sonhava com os amores delas, arquitetava seus destinos como um Deus onipotente e sarcástico. Agora, repara no teto branco: as teias de aranha prosperam nos cantos.
O teto é branco como uma folha de papel. Mas as folhas de agora parecem mais brancas do que nunca. Uma brancura cegante, impiedosa, imaculável. Como tocar ou riscar essa luminosa superfície? O medo toma conta dele: e se nunca mais conseguir escrever? E se o tempo, devorador de paixões, já tivesse digerido sua literatura? Antes as folhas eram brancas, sim, mas sua vida também o era. Havia muito a se viver, muito à se escrever.Eram semelhantes e logo uma enxurrada de idéias despejava-se sobre ambos e delineava-se como palavras ou amores.Agora sua vida já está escrita e as páginas sépias de seu livro de memórias são cobertas de histórias.não há semelhança,na há sintonia.
Ele procura ensandecidamente por suas canetas, como se procurasse as palavras perdidas, nas gavetas bagunçadas. Encontra um maço de cigarros velhos. Retira um, sente o cheiro de decadência e traças. Põe entre os lábios secos o cigarro e pega, na mesma gaveta, um isqueiro metálico, que reflete seu olhar aflito, deformando seu rosto no reflexo prateado. Insiste inúmeras vezes em acendê-lo; consegue, enfim. Pode jurar que ouviu o estalar da ponta do cigarro e que viu um sorriso surgir na bocarra vítrea do cinzeiro.
Traga a fumaça, degustando o gosto acre e envelhecido, ouvindo o chiado satisfeito de sua respiração. Cata um lápis de ponta arredondada, talhada a estilete, perguntando-se: “quem ainda faz isso?”. Desliza as costas curvadas pela cadeira, estica as pernas e, vagarosamente, vislumbra o teto branco. Teias, Aranhas, Palavras...
Num salto brusco, reapruma-se e, curvado como um corcunda sobre a velha mesa carcomida nas quinas, envolto na névoa doentia do velho cigarro, arriscou os primeiros riscos sobre o papel, que agora empalidecia frente aos seus olhos famintos: “Há tempos ele não se propunha a escrever...”

Saturday, November 12, 2005

Um péssimo começo

"Today is the greatest day..." (B. Corgan)
"Hoje é dia de Maria" (R.Globo)
Ó guria, um dia eu cumpro minhas promessas.