Mamãe ama meu revólver

Espaço inexistente onde o nada se transfigura em coisa nenhuma e mimetiza o vazio. minha cabeça.

Wednesday, December 28, 2005

Ano Novo

(escrito no fim do ano passado)



Ano novo, vida nova. Fogos de artifício explodem suas cores no espaço, e caem como lágrimas do infinito.Belas lágrimas, vertidas pelo ano que passou, pela vida passando, pelo átimo de segundo em que foram mais do que fogos, mais do que simples (ou complexos?) compostos químicos em combustão: por um momento foram luzes, foram cores, foram semelhantes à matéria-prima dos sonhos, miniaturas de Big-Bang...Um novo universo se fez naquele segundo...O universo chora.

A luz escorre cintilante pela superfície negra do céu da meia noite.Quantos de nós aqui embaixo, observando atônitos e confortavelmente entorpecidos, conseguimos ver e ser os átimos de segundo em que somos um novo universo, em expansão? Quantos de nós conseguimos ver que não passamos de um champanhe que euforicamente estoura a rolha rumo ao infinito e jorra aos borbotões uma cascata prateada, espumante, anestésica; enquanto,nesse momento-fausto,esquecemos que nossa pródiga rolha,que voava alto às estrelas,dramaticamente perdeu seu impulso e , completando um arco,caiu esquecida atrás de uma cadeira?

Esquecemos que nossa cascata não tem uma fonte eterna, e que o fluxo de prazer e prata está limitado ao conteúdo da garrafa de que provém.Esquecemos que, após a glória da rolha e da cascata, a garrafa vazia é quebrada contra um muro ou, na melhor (ou pior?) das hipóteses,jogada no lixo,na ressaca do primeiro dia do ano (novo,como todos os outros).

Mas é na efemeridade desses momentos que devemos procurar o eterno.Porque os fogos, por mais que iluminem os céus por apenas alguns segundos, podem ficar gravados na retina fotográfica de uma criança ou mesmo um adulto (um poeta, com certeza...); a luxuosa e decadente espumante pode encher muitas taças, e permanecer “viva” e lembrada, numa sobrevida, até as taças completarem seu ciclo análogo ao do champanhe e serem esvaziadas.
Quantos sonhos podem suscitar simples fogos! Quantos amores podem encorajar e abençoar mundanos champanhes! Ano novo, vida nova,seja a nossa ou a de outros.Porque há muitas taças para serem cheias e muitos sonhos para serem sonhados!

Saturday, December 24, 2005

Jogo da Vida

Meu irmão fez 12 anos dia 15. Esse guri é possivelmente a pessoa com quem eu me preocupo mais. A historinha autobiográfica vai ter continuação. mas outra hora. essa é a primeira parte:

Aniversário do meu pai. Estava combinado que eu iria almoçar com eles, e depois comer um bolo bem doce, e depois me empanturrar com os salgadinhos descongelados de um outro aniversário qualquer. E eu ia ficar com sede. Depois eu jogaria videogame com meu irmão o dia inteiro, um daqueles jogos de futebol que eu fico narrando e ele faz os comentários, e que eu normalmente ganho.
Cansados disso, nós pegaríamos uma folha de papel e ele inventaria um Cavaleiro do Zodíaco, e eu desenharia o que ele pedisse. Uma bota longa, uma ombreira com pontas, um capacete com asas... Escolheríamos também um nome pra ele, possivelmente um nome parecido com o nosso; um local de treinamento, um mestre, um golpe. Eu faria o meu depois, sempre menos caprichado, mais rabiscado... Teríamos dois Cavaleiros do Zodíaco, com perfis completos e armaduras coloridas. Dois alter-egos, fugitivos desse mundo, ignorando completamente os limites do corpo e da deficiência.
Nesse dia, eu acordei as 10h da manhã com meu irmão me ligando. “tu vem, né?” , com aquela voz esperançosa, meio enrolada. “vou, vou. Mas eu chego um pouco depois do almoço”. Virei pro lado e me abracei satisfeito nela. Eu não queria sair dali. Estava na casa de uma amiga, do outro lado da cidade. Todo mundo tinha dormido ali, depois de uma noite com tequila, mímica e Jogo da Vida. Eu acho esse jogo meio perturbador, sei lá, uma vida num jogo de tabuleiro.
Me arrasto preguiçosamente do colchão estendido no chão.Já é início de tarde.uma tarde fria, perfeita pra ficar em casa vendo tv. Ligo pra casa do meu pai. Minha madrasta-quase-mãe atende ao telefone, com uma voz carregada de alguma mágoa sem objeto. “Ele foi pra UTI. Liga pro teu pai.” Tarde perfeita pra ficar em casa assistindo tv. Ligo. Meu pai atende, firme como um pilar romano. Acho que na quarta frase eu ouço ele se desmanchar. Eu vejo ele se desmanchar. Inauguramos a Idade Média. Os pilares desabam e o coliseu racha. Um Império suspira duas vezes e silencia.
A vida é um jogo de tabuleiro. Retorne quatro casas. Perca sua vez.

Saturday, December 10, 2005

EU

a Morena (minha irmã) tinha uma idéia para um "about me" do orkut. Eu acabei escrevendo um pedaço, que agora eu posto aqui. só pus a minha parte. oks.



João e Maria resolveram ter um filho.

Não foi um desses filhos acidentais, filhos da pílula, da camisinha furada,do banco de trás do carro,de uma noite só... não. Foi um filho planejado, na medida do possível.

A gravidez ocorreu como dentro do esperado. Enjôo, vômito,desejo de comer abacate,sapatinhos de tricô rosa.As contrações começaram na hora, logo depois da novela.Perfeito, eles não gostavam de Globo Repórter mesmo.

Mas, como dizem por aí, "Deus escreve torto por linhas retas". Logo que a criança nasceu, naquele momento fatídico, a primeira palmada, a criança interrompeu o médico com o mais que surpreendente pronome: EU!

Um milagre! uma intervenção divina! um fato digno de Globo Repórter e chamada no Fantástico!
Logo eles, q não gostavam de Globo Repórter...

Ficou decidido, quase que por intervenção nacional, que o nome da criança seria EU.

EU cresceu como uma criança normal, dentro do possível. Tirando as confusão com o nome, as eternas perguntas "é apelido?", e os problemas com cadastros em geral ("o nome, querida...").

( . . . )

Monday, December 05, 2005

Vivere Memento



imagem: "Liberdade vista da minha cama"

tem uma frase, inscrita em um daqueles relógios de sol medievais, que é simplesmente perfeita. bonita e sombria; simples e profunda; muita coisa dita em poucas palavras; como só em Latim seria possível:


VIVERE MEMENTO


"Lembra-te de viver"


meu post acaba aqui. é desnecessário escrever mais .