Mamãe ama meu revólver

Espaço inexistente onde o nada se transfigura em coisa nenhuma e mimetiza o vazio. minha cabeça.

Friday, May 19, 2006

a cidade.

Tem dias que eu acordo
e vejo anjos saltando pra morte
de todos os edifícios.

Wednesday, May 10, 2006

Me escuta só mais uma vez

Me escuta só mais uma vez.
é que eu me preocupo contigo
tu ainda é o meu melhor amigo.

Me escuta só mais uma vez
não corre tanto pela casa
numa dessas tu desaba
e tu sabe o que pode acontecer.

ESCUTA SÓ MAIS UMA VEZ
do fundo desse monte de aparelhos
e no teu silêncio me responde
apertando minha mão

ESCUTA SÓ MAIS UMA VEZ
eu juro que essa dor já vai passar
e a gente vai brincar
quando tu voltar pra casa...

me escuta só mais uma vez
eu sei que é mais fácil desistir
e que parece impossível sorrir assim
mas tenta só mais uma vez

eu juro que eu vou chegar na hora
eu juro que eu não vou embora
porque amanhã o mundo pode me esperar

me escuta só mais uma vez
vê se não corre tanto nessa vida
eu sei que tua urgência é consciente
e sei que arde essa ferida

respira só mais uma vez
e abre os olhos pras estrelas
e os braços pra voar pela janela
que eu juro que te levo até lá...





* sabe quando tu encontra um texto tão antigo q tu não te lembra?
pois é. não é lá muito bom, mas me tocou muito.

Monday, May 08, 2006

descoberta.

E foi naquela sala escura que ele notou,
através do vidro fosco das garrafas de cerveja:
ela tinha o olhar de quem reza ao pôr-do-sol.

Wednesday, May 03, 2006

Delírios Ipanemenses 1

" Ninguém entende nada." ele berrava andando pela rua, enquanto ouvia o alvoroço das pessoas na casa, juntando os cacos. O portão de ferro deu uma balançada lenta e bateu com força, empurrado pelo vento; Esse som selava uma porta, marcava uma ruptura na linha de acontecimentos febris e confusamente interligados dos segundos, talvez minutos, anteriores. Comparado ao som do portão batendo, a rua era de uma santa paz. Aquela paz de paralelepípedos, aquela veia fria, escura e pacífia da rua que interligava as aconchegantes e brilhantes cálulas-casa desse lugarejo. Maldita paz de pedras e confortos.

Ele corria rápido, descendo uma daquelas ruas silenciosas que tinham nome de lugares distantes: Gávea, Flamengo, Leblon... esperava chegar a qualquer momento em uma dessas promessas, encontrar o movimento, os bares, o calor agradável e tropical; e sobretudo o mar. No fim de uma dessas ele ia encontrar o mar, os barcos, as ondas e todas aquelas coisas cantadas em trezentas músicas macias. Malditas ruas de promessas falsas.

Continua descendo em alta velocidade, que parece lenta e eterna comparada aos momentos dentro da casa. tudo parecia mais lento, desde aquela batida de portão. aquele portão batendo era como a certeza de que a perseguição acabara. Eles ficariam lá, no conforto da sua asfixia, enquanto ele corria no frio dos libertos. "Eles que cortem as mãos nos cacos que eu deixei". Ele atravessa aquela avenida, coberta de gente e bares como se aquilo fosse um deserto. "o mar deve estar mais a frente". Corre mais, mas a paz da calçada pede trégua, e as pedras se erguem traiçoeiras; ele corre cada vez mais rápido, quase alçando vôo; ele corre pelo ar.

Mas o ar da noite é fino e frio. Ele caio no chão na velocidade de um prato quebrando. Maldita promessa falsa de paz.

Deitado, de rosto colado no chão, ele ouve o som das ondas. "estou bem próximo. O mar está logo ali". A visão do dourado da avenida o levanta. caiu um pouco antes da esquina, onde já se escuta o marulho tão alto e claro, tão relaxante. É tudo que ele quer. O som do mar pra se acalmar, pra entender o que se passou, pra pensar. uma última corrida, agora meio manca, até o fim da rua. uma corrida lenta e sofrida, um fim de maratona, onde cada passo seguinte é inalcansável. Ele caminha no ritmo pesado do bater das ondas. "está escuro, porra. onde está essa merda de mar?" Por um momento a vontade se cansa do corpo, e corre livre em velocidade. As buzinas passam altas, os carros freiam e derrapam, o louco atravessa inteiro a rua. ainda é escuro. ainda se ouve apenas o som atlântico. A vontade corre ofegante e desesperada e encontra, surpresa, o corpo pendurado atrás de si. Unos novamente eles descem a abrupta passagem que leva do cimento à areia e avançam quase rastejantes, até a água. o corpo toca nas pequenas ondas.

Ele acorda do transe desesperado, e sente o cheiro de esgoto. O cheiro de água suja, de frio, de inverno. O maldito cheiro de Porto Alegre.



* escrevi direto no post. sem revisão. não reparem nos possíveis erros.