Mamãe ama meu revólver

Espaço inexistente onde o nada se transfigura em coisa nenhuma e mimetiza o vazio. minha cabeça.

Tuesday, August 29, 2006

Tchekhov 179.

- O frio faz a gente se sentir vivo -
falou ela naquela hora, em que o vento gelado do rio nos envolvia e o futuro parecia que nunca ia apontar suas luzes na esquina.

É nessas horas que ela faz eu me sentir vivo.

Saturday, August 05, 2006

Escrever.

Acordo com uma dor de cabeça estranha. É madrugada, início dela, mas me sinto como se estivesse em um meio-dia de verão: suado, raivoso, desconfortável. Estou acordado como nunca.
Empurro as cobertas para o lado com fúria, como se elas fossem uma amante incoveniente; uma prostituta que já perdeu a serventia e não valeu o preço. Totalitarismos de macho Alfa.

Descarto qualquer possibilidade e pegar no sono novamente; meus olhos são magnéticamente obrigados a se manter abertos, como que esperando uma verdade irrefutável, uma resposta desmoronante. Mas só vejo luz esbranquiçada e hospitalar do banheiro entrando teimosa pelas frestas da porta. Grande revelação! A irrefutável verdade da condição humana: comer, beber, foder, mijar, cagar. Pontos de passagem, moedores de substâncias, máquinas inúteis.

Desco da cama, subitamente, e piso os primeiros passos. São sempre difíceis, estranhos, esses primeiros passos do meio da noite, do sono interrompido. Tenho a impressão de que a vida dos miseráveis é assim, um eterno acordar no meio da noite, balbuciando sonhos abortados pela realidade estupradora dos despertos.

Sinto um misto de sede e fome, combinados com uma raiva sem objeto definido. Passo reto pelo banheiro, ignoro a cozinha; encontro um maço de folhas brancas. Puxo uma, acabo movendo várias. Nunca se consegue pegar uma folha só, sem mover outras. Nunca.

A folha é branca, branquíssima. Olho pra ela como que para um espelho metafísico.

. . .

crescem ranhuras, intumescem partes do papel. Um rosto pálido, escarninho, filho da puta surge na folha branca. Ele me olha, provocativo, no fundo dos olhos. Ri, gargalha, pisca. Leio nos lábios dele os xingamentos, as frases de menosprezo, as provocações. Sinto ganas de rasgar a folha ao meio, de queimar essa merda. Esmurro ela uma vez, duas. Encho aquela cara polaca de porradas. filhodaputa. murro, murro, murro.

O som de papel amassando é quase o som de ossos quebrando. Maxilar, Zigomático, Mandíbula, Nasal, Temporal. Impulsiono minha testa na direção dele. Eu sou o macho Alfa. Sinto as cartilagens dele soltando ao contato com meu punho. Sinto a cara dele se reconfigurando em torno da minha mão. Sinto o calor na base dos dedos; o calor de energia transmitida em violência. Sou osso e aço, punho e sangue.

E ele ali, sem reação. A violência muda, inaudível, é a mais perturbadora forma de comunicação. Não ouço um gemido, um som, um murmúrio pedindo compaixão ou chorando pra Deus ou o caralho, que no final não te escutam. Porque o som de um soco é mais alto. O som de um soco é o barulho mais alto do universo naquele segundo.
Não ouço nada além do som infinito do soco, e um zunido intermitente. Só uma música no fundo, bem baixinho. É.
Iggy Pop.

Paro, ofegante. O zunido aumenta, sinto uma sede desgraçada. Vou no banheiro, com a folha amassada, comprimida na minha mão. Sinto o molhado no meio dos dedos.
Entro no banheiro e olho no espelho. Banheiros me lembram uma UTI.
Minha cara tá toda arrebentada. Supercílio aberto, olho inchado, baba vermelha escorrendo, maxilar deslocado.Aquele gosto na boca, que dá a impressão de que tu lambeu um corrimão de ônibus até tua língua rasgar.

Cuspo plaquetas, glóbulos brancos e, sobretudo, vermelhos. Hemoglobina. ferro, literatura, HIV, óxidos, tango. Um dente. Cuspo tudo isso em cima da folha amassada, que agora vejo novamente plácida, sem rosto. uma pigarreada, um catarro, mais sangue: Tuberculose mimetizada. lindo, artístico, ressignificado.

Sinto a sede de novo, misturada dessa vez com aquela dor de cabeça estranha, todas são afinal, e uma certa ânsia também. me ajoelho apoiado na pia, a folha cai da minha mão trêmula, paira e aterrissa silenciosamente no chão. Sinto uma pontada, uma ardência, uma urgência. Vomito em cima da folha: bílis, saliva, mais sangue.

Me levanto inseguro, lavo a cara, o que arde pra caralho, e vou tentar ir dormir de novo. Olho pra folha mais uma vez, agora suja, tingida de vermelho, verde, negro; e sob tudo isso eu posso jurar que ainda vejo o filho da puta rindo de mim.
Merda de espelho metafísico.