Mamãe ama meu revólver

Espaço inexistente onde o nada se transfigura em coisa nenhuma e mimetiza o vazio. minha cabeça.

Saturday, August 05, 2006

Escrever.

Acordo com uma dor de cabeça estranha. É madrugada, início dela, mas me sinto como se estivesse em um meio-dia de verão: suado, raivoso, desconfortável. Estou acordado como nunca.
Empurro as cobertas para o lado com fúria, como se elas fossem uma amante incoveniente; uma prostituta que já perdeu a serventia e não valeu o preço. Totalitarismos de macho Alfa.

Descarto qualquer possibilidade e pegar no sono novamente; meus olhos são magnéticamente obrigados a se manter abertos, como que esperando uma verdade irrefutável, uma resposta desmoronante. Mas só vejo luz esbranquiçada e hospitalar do banheiro entrando teimosa pelas frestas da porta. Grande revelação! A irrefutável verdade da condição humana: comer, beber, foder, mijar, cagar. Pontos de passagem, moedores de substâncias, máquinas inúteis.

Desco da cama, subitamente, e piso os primeiros passos. São sempre difíceis, estranhos, esses primeiros passos do meio da noite, do sono interrompido. Tenho a impressão de que a vida dos miseráveis é assim, um eterno acordar no meio da noite, balbuciando sonhos abortados pela realidade estupradora dos despertos.

Sinto um misto de sede e fome, combinados com uma raiva sem objeto definido. Passo reto pelo banheiro, ignoro a cozinha; encontro um maço de folhas brancas. Puxo uma, acabo movendo várias. Nunca se consegue pegar uma folha só, sem mover outras. Nunca.

A folha é branca, branquíssima. Olho pra ela como que para um espelho metafísico.

. . .

crescem ranhuras, intumescem partes do papel. Um rosto pálido, escarninho, filho da puta surge na folha branca. Ele me olha, provocativo, no fundo dos olhos. Ri, gargalha, pisca. Leio nos lábios dele os xingamentos, as frases de menosprezo, as provocações. Sinto ganas de rasgar a folha ao meio, de queimar essa merda. Esmurro ela uma vez, duas. Encho aquela cara polaca de porradas. filhodaputa. murro, murro, murro.

O som de papel amassando é quase o som de ossos quebrando. Maxilar, Zigomático, Mandíbula, Nasal, Temporal. Impulsiono minha testa na direção dele. Eu sou o macho Alfa. Sinto as cartilagens dele soltando ao contato com meu punho. Sinto a cara dele se reconfigurando em torno da minha mão. Sinto o calor na base dos dedos; o calor de energia transmitida em violência. Sou osso e aço, punho e sangue.

E ele ali, sem reação. A violência muda, inaudível, é a mais perturbadora forma de comunicação. Não ouço um gemido, um som, um murmúrio pedindo compaixão ou chorando pra Deus ou o caralho, que no final não te escutam. Porque o som de um soco é mais alto. O som de um soco é o barulho mais alto do universo naquele segundo.
Não ouço nada além do som infinito do soco, e um zunido intermitente. Só uma música no fundo, bem baixinho. É.
Iggy Pop.

Paro, ofegante. O zunido aumenta, sinto uma sede desgraçada. Vou no banheiro, com a folha amassada, comprimida na minha mão. Sinto o molhado no meio dos dedos.
Entro no banheiro e olho no espelho. Banheiros me lembram uma UTI.
Minha cara tá toda arrebentada. Supercílio aberto, olho inchado, baba vermelha escorrendo, maxilar deslocado.Aquele gosto na boca, que dá a impressão de que tu lambeu um corrimão de ônibus até tua língua rasgar.

Cuspo plaquetas, glóbulos brancos e, sobretudo, vermelhos. Hemoglobina. ferro, literatura, HIV, óxidos, tango. Um dente. Cuspo tudo isso em cima da folha amassada, que agora vejo novamente plácida, sem rosto. uma pigarreada, um catarro, mais sangue: Tuberculose mimetizada. lindo, artístico, ressignificado.

Sinto a sede de novo, misturada dessa vez com aquela dor de cabeça estranha, todas são afinal, e uma certa ânsia também. me ajoelho apoiado na pia, a folha cai da minha mão trêmula, paira e aterrissa silenciosamente no chão. Sinto uma pontada, uma ardência, uma urgência. Vomito em cima da folha: bílis, saliva, mais sangue.

Me levanto inseguro, lavo a cara, o que arde pra caralho, e vou tentar ir dormir de novo. Olho pra folha mais uma vez, agora suja, tingida de vermelho, verde, negro; e sob tudo isso eu posso jurar que ainda vejo o filho da puta rindo de mim.
Merda de espelho metafísico.


11 Comments:

At 10:19 PM, Anonymous débora b. said...

Lust for life!

 
At 7:01 PM, Blogger Iuri Bauler said...

heuheue. ninguém lê posts desse tamanho! lançado o desafio "saco de ouro". abraços a todos.

 
At 7:58 PM, Blogger Iuri Bauler said...

5 pontos pra Débora!

 
At 2:24 PM, Blogger Gustavo said...

Perfeito.

Eu leio, tu sabe que eu leio.

Lindo, violento, mas lindo, entende?
Não é como Nelson Rodrigues, não esse tipo de texto...
Mas violentamente, passando-se na cabeça, consciência, pensamentos da personagem. Esse tipo de texto.

 
At 2:05 PM, Anonymous Manoela said...

"A violência muda, inaudível, é a mais perturbadora forma de comunicação".
Eu gosto quando você coloca essas antíteses, haha, eu acho que já te comentei isso.. Enfim, é um dos melhores, meus preferidos, também (também, porque agora isso já tá ficando clichê dizer, eu tenho que descobrir novos meios de fazer elogios :P).

 
At 2:59 AM, Blogger Chronos said...

Depois tenho que te contar mais uma piada, repetitiva como sempre, mas legal.
Tu mudaste Iuri, talvez pra melhor, talvez pra pior, nunca ninguém vai saber na verdade, nem tu.
Mas o importante é que tu descobriste uma das muitas coisas que caracteriza "viver", quebrar suas convicções, paradigmas e dogmas, já vi tu fazendo isso mais de uma vez, e te respeito demais por isso.
Tua força vai muito além do papel e da caneta, do teclado e da tela mórbida do computador; ela chega no interior, do e para o interior, do teu âmago pro estômago de quem presta mais atenão no que tu diz.
Não vou citar nada que eu não domine totalmente aqui, pra não ir ao óbvio disfarçado de inteligente e obviamente "pseudointelectual".
Vou citar eu mesmo:
"Tá foda!"

 
At 2:59 AM, Blogger Chronos said...

PS:
Não preciso dizer que li tudo, preciso?

 
At 3:00 AM, Blogger Chronos said...

*atenção

detesto errar português, ainda mais por descuido, ARGH!
mas são 7 da manhã, então é perdoável.

 
At 3:33 PM, Blogger Vento. said...

O "Chronos" explicou com palavras bonitas o que tentava te dizer ontem. As coisas que tu escreve encostam em algum lugar da gente, assim, de um modo irredutível.

 
At 6:29 AM, Blogger Chronos said...

não sei porque, mas eu sabia que tu ia gostar mais dos zumbis que do resto.
^^

 
At 7:03 PM, Blogger mauricio said...

eu pensei em lust for life também



pra mim, iggy + iuri = lust


obviamente.


amei teu texto, seu filhodaputa.

 

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