Mamãe ama meu revólver

Espaço inexistente onde o nada se transfigura em coisa nenhuma e mimetiza o vazio. minha cabeça.

Wednesday, October 18, 2006

Nota autobiográfica.

Ela estava ali, como que refugiada do mundo duvidoso e inimaginável dos adultos por mais alguns segundos. lembro vagamente da situação. de como o tempo passou rápido, muito rápido, como que correndo numa brincadeira de recreio. Lembro, ou sinto, para ser mais sincero e menos preciso, a mesma velocidade tranquila e agradável. Não me preocupava como tempo naquela época, não sentia urgência dos instantes mágicos, a preocupação de sobreviver e saborerar desesperadamente, meticulosamente esses instantes. sei que foi rápido. Tão rápido quanto uma mãe pode pronunciar, com a quele tom imperativo, o nome Nicole.

é, nicole era o nome. Lembro do nome, me lembrei por acaso esse dia. os cabelos eram negros, lisos, cortados tipo chanel, com aquela franjinha. A pele era branca, muito branca. Tão clara que sua luz borra o rosto na memória. sei que ela tinha um rosto de criança, levada e suave; daquelas crianças que as avós chama de arteiras. um rosto de criança irresistível, com certeza. O meu gosto não pode ter mudado tanto, afinal.

Sei que eu estava lá. dentro daquele tubo de concreto áspero, ainda morno do sol da tarde. Aqueles tubos de pracinha, que dão a impressão de serem o refúgio mais solitário e mais perfeito, o lugar mais privado e protegido, na inconstância do universo incerto das crinaças. a creche era árida e amável, e devia ser final de tarde, hora da saída, fim do exílio. estávamos lá. eu e Nicole. a borrada e luminosa Nicole da minha lembrança mais antiga. e, naqueles segundos antes da sua mão chamar, trocamos um olhar cúmplice, inocente, idílico. Sem palavras, sem pudores ou malícias. Nos olhavamos, quando irrompeu, como a mais natural, incrível e delicada brincadeira a decisão. A voz trovejante da mãe dela chamou quase ao mesmo tempo em que nos beijamos.

Foi um daqueles beijos vivazes, rápidos como um soluço, onde uma mínima parte dos lábios se tocam envergonhadamente. Sei que foi rápido. acho q até hoje, foi a coisa mais rápida que já aconteceu na minha vida. Rápida, suave e indolor. Foi assim. Mais descrição retiraria toda a magia do momento, do segundo, da existência. tudo o que posso é repetir a fala da mãe dela, Deus ex-machina: Nicole.

ela me olhou já saindo em altíssima velocidade do tubo, um olhar meio confuso com o sol dourado fraco do fim da tarde. Um olhar de luz. E eu fiquei ali, exultante, confuso e vivo. incrivelmente vivo. Estava um pouco assustado tb. Mas meu refúgio me tranquilizou. esse foi um momento longo. um longo deleite de memória imediata. e aí acaba, nesse tubo áspero de concreto o meu flash de lembrança.

Não lembro de ter falado com ela alguma vez, no meu longo ano naquela creche. Não lembro de a ver alguma vez depois. Acho q ela existiu pra mim só naquele momento ímpar. Naquele segundo doce e morno, que durou um simples nome.

a memória é um segundo fragmentado, que borra com sua luz o passado. A memória é um nome pronunciado por nós, na solidão do relembrar.