Mamãe ama meu revólver

Espaço inexistente onde o nada se transfigura em coisa nenhuma e mimetiza o vazio. minha cabeça.

Wednesday, December 27, 2006

esquecido pelo mundo.

São Luís é uma cidade avermelhada de terra, com uma tarde morna e longa interrompida pelo estouro periódico de bombinhas.
e segundo um garotinho de 2 anos, habitada por dinossauros.

aqui a solidão se espraia na terra vermelha e volta pra casa pesada e suja, feito criança cansada das férias.

Monday, December 18, 2006

é o costume, afinal.

Ela acordou cedo, bem cedo. É o costume, afinal. Não interessa o sábado, o feriado, a comemoração nacional, as paradas militares ou Deus descansando depois de fazer o universo. é o costume, afinal.

Cedo, como de costume, e encarangada. Não sei se é o costume, afinal, mas ela sempre acorda com as articulações nodosas do corpo trêmulas, e com um frio quase insensível ao mundo. Levanta arrastando os pés, joga o robe sobre o corpo magro e desafetuoso das cinco da manhã e avança decidida como um conquistador rumo ao banheiro. Investe, com sua fúria contida e dosada com antidepressivos, contra cada azulejo mofado nas bordas. Seus passos, conquistadores de centímetros, são mudos e irregulares; os músculos da cara, amassados pelo travesseiro da cama e enrugados pelo sono murcho dos anos, abrem a boca seca em um bocejo inaugural; o hálito velho da noite se espalha pelo ar frio e úmido do banheiro.

ela inicia o seu ritual matinal, desprovido de pompas ou pensamentos, automático como os olhares desinteressados que devolve ao espelho enquanto limpa a maquiagem borrada da noite. Ela dorme maquiada, de batom, rímel e blush, na mórbida esperança de que, se morrer, estará digna e deslumbrante como uma atriz de novela. Todo dia ela acorda, feia e ninguém, com essa esperança borrada na cara, sem flores, choro, câmeras de novela ou o Tarcísio Meira sorrindo nas portas do purgatório. É o costume, afinal.