Mamãe ama meu revólver

Espaço inexistente onde o nada se transfigura em coisa nenhuma e mimetiza o vazio. minha cabeça.

Monday, December 18, 2006

é o costume, afinal.

Ela acordou cedo, bem cedo. É o costume, afinal. Não interessa o sábado, o feriado, a comemoração nacional, as paradas militares ou Deus descansando depois de fazer o universo. é o costume, afinal.

Cedo, como de costume, e encarangada. Não sei se é o costume, afinal, mas ela sempre acorda com as articulações nodosas do corpo trêmulas, e com um frio quase insensível ao mundo. Levanta arrastando os pés, joga o robe sobre o corpo magro e desafetuoso das cinco da manhã e avança decidida como um conquistador rumo ao banheiro. Investe, com sua fúria contida e dosada com antidepressivos, contra cada azulejo mofado nas bordas. Seus passos, conquistadores de centímetros, são mudos e irregulares; os músculos da cara, amassados pelo travesseiro da cama e enrugados pelo sono murcho dos anos, abrem a boca seca em um bocejo inaugural; o hálito velho da noite se espalha pelo ar frio e úmido do banheiro.

ela inicia o seu ritual matinal, desprovido de pompas ou pensamentos, automático como os olhares desinteressados que devolve ao espelho enquanto limpa a maquiagem borrada da noite. Ela dorme maquiada, de batom, rímel e blush, na mórbida esperança de que, se morrer, estará digna e deslumbrante como uma atriz de novela. Todo dia ela acorda, feia e ninguém, com essa esperança borrada na cara, sem flores, choro, câmeras de novela ou o Tarcísio Meira sorrindo nas portas do purgatório. É o costume, afinal.

6 Comments:

At 5:31 PM, Blogger Vento. said...

gostei
não sei que palavra usar pra definir
me fez pensar numa velha magra e raquitica, que foi artista quando era jovem
uma velha magra e com a cara repuxada de plasticas feitas antes do necessário
que acordava cedo por pura rotina de não ter o que fazer. dormir cedo, acordava cedo, tomava o banho cedo, fumava um primeiro cigarro diário muito cedo
sentava numa poltrona velha como ela. velha e desgastada. mas ela não era velha de idosa. era só uma mulher velha e seca e feia
de 54, 56 anos...
fiquei viajando aqui, mas já sei: peguei bem o clima, haha.

 
At 8:58 AM, Blogger irepeatmyselfwhenunderstress said...

tu desperdiça teu talento com teus leitores.

devia parar de escrever

 
At 5:00 PM, Blogger Vento. said...

bah me cortaram afú aqui em cima. u_u'

 
At 2:02 PM, Blogger irepeatmyselfwhenunderstress said...

bah, ô ju!
não foi a intenção, desculpa

a idéia era cortar a mim mesmo :P

 
At 2:54 AM, Blogger Gustavo said...

Eu não fiquei imaginando ninguém.
A Juh imaginou por todo mundo.
Mas eu nunca imagino mesmo. Minha imaginação é péssima.

Agora, adorei o final, adorei o nome do Tarcisio Meira ali no meio, melhorou o texto, mesmo.
Gostei da história da morte.

Iuri, tu transformou uma cena cotidiana, banal...em uma cena lírica, teatral e poética.
Continue assim que eu me aposento.
:)

 
At 6:17 PM, Blogger Daí...daí é foda né? said...

se não tivesse tetas (e no texto não especifica tetas) eu me sinto assim em algumas noites, bem assim

 

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