Mamãe ama meu revólver

Espaço inexistente onde o nada se transfigura em coisa nenhuma e mimetiza o vazio. minha cabeça.

Saturday, March 31, 2007

se essa(s) rua(s) fosse(m) minha(s)

ele pegou duas ruas vicinais, que nao conhecia. ruas sem ninguém, repletas de um ar puro, fresco e solitário, que invade o seu corpo como um entorpecente. sente um aperto subito no peito, como se algo lá acordasse, invadido por um novo sopro de vida. quase cai no chão com a pressao nova, intravenosa, embasbacante. as narinas dilatadas ardem com aquele ar inclementemente bélico. em momentos estranhamente simultâneos; sente como se estivesse enchendo como um balão, leve para voar, quase levantando voo; e como se algo, o mais pesado e opressor preenchimento o prendesse à terra, empurrando contra o solo, pesando sobre os joelhos que se arqueiam em reverência.

seus olhos estao mareados, por mais secos e dilatados que parecam. o contorno das ruas se perde, as duas ruas simultâneas, sobrepostas, ocupantes do mesmo espaco, distraindo as leis da materia, dilatando o tempo-espaço daquele instante de alívio sôfrego.

seu olhar ultrapassa agora, essa pretensa realidade palpável de ar puro e forte como uma dupla dose de vodka; ultrapassa essas caixas de sapato empilhadas, essas cidades de sucata, brincadeiras de alguma criança entediada. ele olha reto e sério, para as palavras que saltam como de um abismo a frente. o abismo brilha, com uma forte luz artificial, límpida e opressora como o ar das ruas que estava, está, não esteve. saltam desse abismo os caracteres, retos perfeitos, decididos. saltam como pontos negros, como se a profundidade viesse deles, estivesse restrita aqueles inúmeros pontos negros, como buracos de traça na superfície brilhante que separa nossa existência oprimida pelo ar e pela tirania da respiraçao incessante e involuntária desse outro espaço, icomensuravelmente profundo, negro e repleto de signos, caracteres e pontos negros que rasgam a película do que é-real-não-o-sendo.

ele agora escreve, de frente para a tela brilhante e pontilhada do computador, febrilmente tentando achar as duas ruas, o voo e o peso, e a película brilhante. ele procura esse fuga de novo e de novo, dentro da sua caixa de sapatos.

4 Comments:

At 7:03 AM, Blogger Chando, Lucas said...

Na única vez que tomei cogumelos tive uma viagem parecida. Queria ter escrito na época. Aquele bando de pessoas correndo parecia um exército de guerrilha desarmada frente ao imponente homem de farda sobre seu cavalo marrom. Talvez eu ainda escreva.

porém, falando mais para a realidade da coisa, gosto quando tu escreve. as vezes parece intrincado e não é. quase sempre é bonito. quase nunca, entediante.


esses momentos de lucidez embriagada são ótimos, principalmente quando te desligam do resto do mundo, cercado de conhecidos.

ps: aquele do seminarista que descobre o sexo, tem continuação? Nunca pensaste em fazer uma? Com a personagem feminina ao menos, ou talvez o dia seguinte de cada um. Talvez não, deixa pra lá. Pode ser uma péssima idéia.

 
At 2:46 PM, Blogger Gustavo said...

interessante é que eu leio os textos e esqueço o que li no segundo anterior. nunca vou conseguir comentar como o chando.
só lembro que é um texto bonito, e que ia falar algo como: interessante essa história de mundo exterior e mundo interior. ruas e caixas de sapato. interessante, mesmo.

 
At 3:39 PM, Blogger Chando, Lucas said...

saudade do teu revólver.


E isso não sôou tão gay na minha cabeça.

 
At 4:19 AM, Anonymous Anonymous said...

Porra.
Você. Escreve. Bem. Pra caralho.

Não ouse parar.

 

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